
Vivemos um momento único na história da educação. Crianças estão chegando ao mundo não apenas rodeadas de tecnologias, mas imersas em um ecossistema digital que molda comportamentos, expectativas e vínculos desde os primeiros anos de vida. E, ao mesmo tempo, percebo pais e educadores tentando acompanhar esse ritmo, muitas vezes se sentindo tão perdidos quanto os próprios filhos.
Nesse encontro entre o humano e o digital, uma pergunta tem me acompanhado constantemente: como educar uma geração que encontra companhia, validação e respostas imediatas em ferramentas de IA que não sentem, não sofrem e não amam?
A conversa que tive com a educadora Cris Poli no ClassIA Talks iluminou essa tensão — não para demonizar a tecnologia, mas para revelar onde realmente está o problema: não nas máquinas, mas naquilo que estamos deixando de oferecer como seres humanos.
Quando ouço que quase 40% das crianças brasileiras estão recorrendo à inteligência artificial para buscar apoio emocional e companhia, isso me assusta. O número em si já é preocupante, mas o motivo por trás disso é ainda mais.
Por que uma criança precisa conversar com uma máquina para se sentir compreendida?
Por que tantos adolescentes preferem a validação infinita e sem fricção de um chatbot a uma conversa verdadeira?
Cris Poli tocou no ponto central — e concordo completamente: isso não nasce no digital, nasce na família. Nasce na falta de tempo, de presença, de diálogo, de referência. A IA não rouba espaço de ninguém; ela apenas preenche o espaço que ficou vazio.
A tecnologia só ocupa o que deixamos descoberto.
As crianças de hoje têm acesso a tudo: informação ilimitada, entretenimento imediato, estímulos constantes. Mas não têm aquilo que nenhuma máquina pode oferecer:
Estamos diante de um paradoxo doloroso: a geração mais conectada é também a mais solitária. E, como a Cris lembrou na conversa, essas crianças estão crescendo sem o treino emocional necessário para lidar com frustração, limites e discordância.
E isso não se aprende deslizando o dedo na tela.
Não existe algoritmo capaz de ensinar empatia e resiliência.
Se quisermos entender parte da crise atual, precisamos olhar para trás. A pandemia deixou marcas profundas — algumas que ainda não conseguimos mensurar totalmente.
Crianças nasceram sem ver rostos, passaram anos sem convívio social, construíram vínculos mediados por telas e perderam experiências básicas de contato humano. Falta de toque, ausência de rotina, confinamento… tudo isso deixou consequências reais.
Hoje, os efeitos começam a aparecer:
A IA não criou esse buraco — mas encontrou terreno fértil para se tornar companhia.
Existe um dilema muito evidente: os pais de hoje precisam disciplinar um hábito que eles próprios não conseguem controlar. Como pedir que uma criança limite o tempo de tela se nós, adultos, passamos em média nove horas por dia diante de telas?
Cris foi certeira ao dizer: não existe educação sem exemplo.
E ela trouxe algo que me marcou muito: a única coisa pela qual uma criança abre mão espontaneamente da tela é tempo de qualidade com os pais. Nenhuma punição funciona melhor que presença genuína.
A tecnologia não é o problema.
O problema é a ausência.
Muitas famílias, mesmo sem perceber, passam a responsabilidade da educação para outras pessoas ou instituições. Mas isso nunca funcionou — e nunca vai funcionar.
Hoje, crianças passam 10 a 12 horas por dia na escola ou com cuidadores. Só que:
Quando essa parceria se rompe, a criança fica no meio — vulnerável, carente, buscando respostas onde só encontrará dados e estatísticas.
A IA não vai desaparecer. Pelo contrário: será a principal linguagem da próxima década. Por isso, não acredito que proibir seja o caminho. Tampouco ignorar.
A resposta está no tripé:
letramento digital + pensamento crítico + diálogo constante.
Para usar IA de forma saudável, nossas crianças precisam:
E isso começa com adultos — pais e professores — preparados para aprender também.
Sempre encerro o podcast com a mesma pergunta: o que nos torna verdadeiramente humanos?
A resposta da Cris foi simples e profunda: o amor.
Não o amor romântico, mas o amor que:
Esse amor não aparece em chatbot, não se compra em app, não se programa em código. Ele nasce no olhar, no toque, no tempo junto, na paciência, no esforço das conversas difíceis.
E é justamente esse amor que a tecnologia nunca vai conseguir substituir — mas pode sufocar se a gente não estiver atento.
O futuro não é tecnológico — é relacional
A pergunta não é “como proteger as crianças da tecnologia?”.
A pergunta é: como preparar crianças para um mundo tecnológico sem perder aquilo que nos torna humanos?
A resposta, para mim, está no equilíbrio:
No fim, a educação do futuro não será sobre usar menos tecnologia, mas sobre usar melhor — com mais consciência, mais humanidade e mais presença.
E tudo começa dentro de casa.
👉 Assista à conversa completa no link abaixo — e aproveite para se inscrever no canal para acompanhar os próximos episódios.
👉 Entrevista completa com a Cris Poli.
Escrito por Rafael Irio, fundador e colunista da ClassIA. Artigo publicado no dia 11/12/2025.